Algumas Características da Investigação dos Materiais em PortugalA história da Ciência de Materiais em Portugal, quer a nível de ensino quer a nível de investigação, está marcada pela eterna dicotomia entre investigação fundamental e investigação aplicada. A situação da indústria em Portugal, que é geralmente de relativa pobreza tecnológica, lança cores especiais nesta polémica universal. A Ciência dos Materiais é essencialmente ciência aplicada embora, como é óbvio, apoiada em muita e boa investigação fundamental. Mas é, sem dúvida, o seu carácter de ciência aplicada que a torna importante, sobretudo junto dos Governos e da indústria. Os investigadores portugueses são sensíveis a esta polémica. Uma pequeníssima maioria diz que faz (e faz) investigação fundamental. O resto, que é a esmagadora maioria, procura fazer investigação aplicada. Só que, muitas vezes, essa investigação não chega a ser aplicada e não é solicitada pelas empresas. De tal modo que já se inventou a designação de IANA (investigação aplicada não aplicável) para definir alguma da investigação que se tem feito em Portugal na área dos Materiais (e noutras). Uma outra característica curiosa da investigação em Materiais no nosso país, que penso poderá estar relacionada com o que acima escrevi sobre a dicotomia entre investigação aplicada e fundamental, é o não levar a investigação até ao fim. Isto é, em grande parte, responsável pelo pequeno rendimento em termos de publicações científicas; o que, diga-se em segredo, não afecta muito a carreira dos investigadores. Penso que este vício do inacabado resulta da «falta de ambiente» científico geral: a Ciência não é (ainda) levada a sério em Portugal.Outras Instituições ligadas à Ciência dos MateriaisIndústriaNas empresas, não há investigação que mereça ser referida. As empresas portuguesas recorrem, porém, cada vez mais às universidades e ao LNETI para, como costuma dizer-se - e fica quase tudo dito - resolver os seus problemas. Isto é, as empresas não pedem propriamente investigação científica e não absorvem a investigação aplicada que se faz; limitam-se a pedir pequenas coisas, geralmente com pouco interesse para a investigação científica.INIIAntes do LNETI, funcionou, como laboratório de apoio à indústria, o Instituto Nacional de Investigação Industrial, criado em 1959, e que foi integrado no LNETI quando da criação deste em 1982. O INII tinha por objectivo dar apoio a diversos sectores industriais (seis no total) entre os quais destaco, por se situarem na área dos Materiais: têxteis, vestuário, curtumes, calçados e afins; madeira, papel, celulose e cortiça; metais e metalomecânica; cerâmica, vidro e abrasivos. Para atingir os seus objectivos, foram criados núcleos de investigação e assistência técnica, dentro do INII. Merece destaque o núcleo de Metalurgia, chefiado por Antera de Seabra, que englobou 5 licenciados. Era um grupo vocacionado, como convinha, para a questão do controlo de qualidade dos produtos da metalurgia. Teve um papel de relevo na divulgação de literatura metalúrgica junto das empresas. Uma iniciativa «histórica», que ficou a dever-se ao Núcleo de metalurgia do INII, foi a realização, em 1962, do «I Colóquio Nacional de Metalurgia», que teve enorme êxito e terá sido a primeira reunião de metalurgistas portugueses, com 300 participantes e 50 comunicações. Desta reunião resultou a formação de uma comissão para a criação da «Associação portuguesa de Fundição», que surgiu em 1964 e existe até hoje. Esta Associação passou a organizar regularmente congressos de Fundição, primeiro nacionais e depois ibéricos, em conjunto com a sua congénere espanhola.LNECOutro núcleo que merece menção é o de Metalografia do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, chefiado por Antera de Seabra desde 1950, que tem realizado muito trabalho de microscopia óptica (metalografia) de aços e ferros fundidos. No LNEC existe também uma divisão de Materiais de Construção, preocupada sobretudo com questões de controlo de qualidade e divulgação de materiais de construção junto dos utilizadores.
Fotografia tirada em Dezembro de 1974, no primeiro Congresso Nacional de Mecânica
Teórica e Aplicada, que decorreu no LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
O orador é Simões Berto, numa apresentação da sessão de Mecânica dos Materiais. Na mesa,
da esquerda para a direita, António de Pádua Loureiro, Henrique Carvalhinhos e
Editha Mattes.
Instituto de Soldadura e QualidadeO Instituto de Soldadura e Qualidade (inicialmente Instituto de Soldadura) foi criado pela indústria metalomecânica em 1965. Luciano Faria teve um papel decisivo nesta iniciativa. A actividade do Instituto no domínio da soldadura, sobretudo em questões de execução e controlo de qualidade, tem sido acompanhada de trabalho de ID no domínio da soldadura. Mais recentemente, o Instituto tem procurado alargar a sua competência ás técnicas mais avançadas de soldadura e outras técnicas de união de materiais. O Instituto foi sucessivamente orientado por Luciano Faria, Salgado Prata, Cerqueira Lopes e Dias Miranda, e constitui um óptimo exemplo de instituição de apoio à indústria, num sector restrito. As suas acções de formação são também dignas de nota.Instituto de Ciência e Tecnologia dos MateriaisEm 1983 foi criado o Instituto de Ciência e Tecnologia dos Materiais (ICTM) por iniciativa de Ricardo Bayão Horta, que havia deixado pouco antes a pasta da Indústria. O Instituto teve como sócios fundadores o LNETI, a Universidade Técnica de Lisboa e o IST. A sua orgânica e objectivos foram definidos por uma comissão instaladora que foi constituída em 1982. Em 1985, o ICTM lançou projectos de investigação sobre a cortiça, contratando para o efeito investigadores no LNETI (Inês Florêncio, Nunes Marques), no IST (Amaral Fortes, M. Emília Rosa) e no Instituto Superior de Agronomia (Helena Pereira).O ICTM tem aumentado as suas áreas de actuação e integrado como sócios diversas empresas de peso na economia nacional, no sector dos Materiais. Em 1989, criou o ICTPOL (Instituto de Ciência e Tecnologia dos Polímeros), de que são sócios o próprio ICTM, o IST, a Universidade do Minho, o Centro de Física da Matéria Condensada e as empresas Quimigal, Cires, Epsi e Hoechst, destinado a efectuar investigação aplicada e fundamental na área de polímeros. O ICTPOL é dirigido por Gabriel Feio. Sociedades CientíficasEm 1981 foi criada a Sociedade Portuguesa de Materiais (SPM). Inicialmente ter-se-á pensado numa Sociedade Portuguesa de Metalurgia, mas teria sido desastrosa esta opção. A ideia da SPM teve origem em reuniões da Comissão Cultural de Engenharia metalúrgica da Ordem dos Engenheiros, a qual apareceu depois da criação, em 1970, das licenciaturas com aquela designação. A escritura notarial de constituição da SPM fez-se em Maio de 1981 e foi assinada, por parte da Sociedade, por Antera de Seabra, Maria Emília Rosa, Armindo Jorge, Pádua Loureiro e Barbedo de Magalhães. O primeiro Presidente da Sociedade foi Henrique Carvalhinhos. A SPM tem tido um crescimento lento, tendo pouco mais de 300 sócios. A sua actividade com maior importância e relevo para a investigação científica em Portugal tem sido a organização de Encontros da Sociedade Portuguesa de Materiais, que se realizam de 2 em 2 anos desde 1983. O primeiro encontro, Materiais 83, realizou-se em Lisboa e foi organizado por Amaral Fortes e Maria Emília Rosa. Os restantes realizaram-se sucessivamente no Porto, Braga e Coimbra. Neste último, o Materiais 89, foram apresentadas 90 comunicações. Além destas, os Encontros têm sido preenchidos com conferências plenárias por especialistas nacionais e estrangeiros. Os Encontros têm sido de âmbito nacional, se excluirmos os conferencistas convidados estrangeiros e ocasionais investigadores espanhóis. A Sociedade Portuguesa de Materiais iniciou em 1989 a publicação de uma revista intitulada Ciência e tecnologia dos Materiais que, em princípio, se destinará a publicar artigos de divulgação e notas científicas. Em Outubro de 1980, foi criada a Sociedade Portuguesa de Cerâmica e Vidro, por iniciativa da Universidade de Aveiro. Esta Sociedade conta actualmente com 360 sócios, muitos dos quais são empresas do sector. Edita uma revista trimestral, da qual já se publicaram 22 números. Também a Sociedade Portuguesa de Física (SPF) e, em menor grau, a Sociedade Portuguesa de Química, têm encontros nacionais onde se apresentam resultados de investigação em materiais. A Física da Matéria Condensada (FMC) tem tido um peso grande nos Encontros da SPF, com 50% das comunicações no Física 88 e 30% no Física 86, num total, em ambos os congressos, de 60 comunicações. A revista da SPF, a Portugaliae Physica, publica um número apreciável de artigos de autores portugueses no domínio da FMC. A SPF tem uma divisão de Física da Matéria Condensada que organiza, em colaboração com a sua congénere espanhola, Jornadas Ibéricas de FMC, de três em três anos (1983 e 1986). Esta Divisão está a preparar, desde 1988, um importante congresso da Sociedade Europeia de Física no domínio da FMC, que se realizará em 1990 em Lisboa. |