A Investigação dos Materiais nas Universidades PortuguesasAté à criação do Serviço de Química e Metalurgia do LFEN, pode dizer-se que não havia investigação científica em Portugal na área dos Materiais. As universidades limitaram-se a ensinar, sem mostrar nada, isto é, o ensino experimental era praticamente nulo. Durante muitos anos após a criação do LFEN (em 1956), a investigação continuou a não entrar nas universidades. Foi a criação de licenciaturas em Engenharia Metalúrgica, em 1970, que marcou o início da investigação nas Universidades. De facto, as licenciaturas levaram ao aparecimento de Secções e Departamentos de Metalurgia, o que quer dizer que só então passou a haver nas Universidades a dimensão mínima necessária à investigação. Para provar que não estou a exagerar, faço notar que o primeiro doutoramento que houve em Portugal, em Materiais, depois do de Pádua Loureiro em 1972 (que foi feito, no LFEN) ocorreu já na década de 1980. Os anos 70 são anos de tomada de consciência da necessidade de investigação científica em Portugal e de criação de condições mínimas para efectuar essa investigação. Os Departamentos e Secções relacionados com Materiais que foram aparecendo nas universidades (sobretudo em Aveiro, Lisboa, Porto, mas também em Coimbra e no Minho) são a característica mais importante desse período. A Faculdade de Ciências do Porto e, em menor grau, a de Lisboa, começaram também a interessar-se pelo estado sólido e pelos materiais. Vários núcleos de investigação em materiais surgem igualmente na área da Engenharia Mecânica e Química; a Engenharia Civil continua a ser um sector «tradicionalmente interessado» nos materiais. Neste período, doutoraram-se no estrangeiro (sobretudo em Inglaterra e em França, mas também nos EUA e na Alemanha Federal), mais alguns docentes universitários. Estes doutoramentos não obedeceram a qualquer plano pré-estabelecido e não houve preocupação de cobrir este ou aquele sector dos materiais. A única escola superior que terá seguido um «plano» foi a Universidade de Aveiro, mas, mesmo aí, o denominador comum foi muito vasto - os cerâmicos. A lógica desta estratégia (ou a falta dela), era, ao que suponho, a seguinte: havendo tantas brechas para colmatar, isto é, tantas áreas da Ciência dos Materiais em que não existiam especialistas portugueses, e não havendo sectores industriais carentes desta ou daquela especialidade, o mais simples era ir para um sítio onde já se conhecesse alguém ou onde alguém (português) conhecesse alguém, ou onde houvesse alguém muito bom. A partir de 1975, começam a aparecer os centros de investigação do INIC na área da Ciência dos Materiais e Física da Matéria Condensada. O primeiro é o Centro de Física da Universidade do Porto (1975), que engloba um grupo de investigadores em Física do Estado Sólido, constituído por João Bessa e Sousa, Machado da Silva, Ferreira da Silva e Renata Alves, todos eles doutorados no estrangeiro entre 1966 e 1969. O grupo nasceu por iniciativa de Moreira Araújo, que teve assim um papel idêntico ao de Marques Videira na Metalurgia. No entanto, houve na iniciativa de Moreira Araújo uma maior homogeneidade nas áreas de investigação seleccionadas, que permitiu constituir um grupo capaz de colaboração activa e produtiva. Em 1975, foram criados mais dois centros do INIC na área dos Materiais e Física da Matéria Condensada: o Centro de Mecânica e Materiais da UTL (conhecido por CEMUL), que englobou duas linhas de investigação (de entre 6) em Materiais, e o Centro de Física da Matéria Condensada das Universidades de Lisboa, ligado à Faculdade de Ciências, mas que se instalou sobretudo no ex-Centro de Física e Matemática (actual Complexo II do INIC). As verbas de que dispunham estes Centros eram reduzidas, mas, pela primeira vez na Universidade, eram verbas destinadas à investigação, o que reflectia uma viragem no rumo.
Fotografia tirada em Dezembro de 1974, no primeiro Congresso Nacional de Mecânica
Teórica e Aplicada, que decorreu no LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Estão presentes, na primeira fila, da direita para a esquerda,
Henrique Carvalhinhos, Helena Carvalho e Luis Guerra Rosa; na segunda fila,
também da direita para a esquerda, João Gomes Proença e Amaral Fortes.
Mais tarde, em 1980, surge o Centro de Cerâmica e Vidro da Universidade de Aveiro, que se pode
identificar com o Departamento do mesmo nome, criado em 1975. À semelhança do grupo de Física
do Estado Sólido do Porto, este centro nasceu e tem-se mantido com enorme coesão, liderado por
João Lopes Batista. Aí fazem investigação cerca de 10 doutores e outros tantos licenciados.
Mais ou menos na mesma altura foi criado o Centro de Metalurgia da Universidade do Porto.
A variedade de temas de investigação que arrancaram entre 1974 e 1980 nos centros do INIC
não permite enumerá-los a todos. Referirei apenas alguns. A Mecânica da Fractura começa a
ter muitos adeptos em Portugal, sobretudo entre os Engenheiros Mecânicos, e terá sido sobretudo
por esta via que os Mecânicos se aproximaram dos Materiais. Carlos Moura Branco e Luciano
Faria foram os impulsionadores desta área. Os cristais líquidos tornaram-se um tema de
investigação a sério, com o grupo criado por Farinha Martins no Centro de Física da Matéria
Condensada. O grupo da Faculdade de Ciências do Porto produz excelente trabalho em propriedades
de transporte e física das baixas temperaturas. No IST, Amaral Fortes publica vários artigos
sobre a teoria das redes de coincidência e sobre deformação plástica.
A partir de 1980 a investigação intensificou-se e diversificou-se, embora não tenham aparecido
mais centros do INIC ou mais Departamentos para além daqueles que já mencionei. Houve dois
acontecimentos importantes que contribuíram para esta expansão. Um deles foi a realização,
em 1986, das Jornadas da JNICT que precederam o Programa Dinamizador de Materiais. A importância
destas Jornadas e do Programa foram ampliadas pelas verbas relativamente elevadas postas a
concurso para investigação e infraestruturas. O outro acontecimento importante foi a entrada
de Portugal na CEE em 1986, que abriu a possibilidade aos investigadores portugueses de
concorrer aos programas europeus.
A verdade é que, desde 1986 e até final de 1988, se viveu um período de euforia na comunidade
científica portuguesa que deu frutos de vários paladares. Por um lado, verificou-se um incremento
da investigação e puderam ser adquiridos equipamentos que faziam efectivamente falta a essa
investigação. E mais: houve um processo de selecção das propostas de projecto nunca visto em
Portugal e que pode considerar-se exemplar, com envio das propostas a peritos e avaliação final
por um painel de especialistas, após apresentação e discussão pública dos projectos. A esta época
fica ligado o nome do então Presidente da JNICT, José Mariano Gago.
O outro sabor, mais amargo, resultou de não se ter conseguido ou querido resistir à torrente
aleatória das propostas que foram submetidas, muito embora se tivesse imposto um certo dirigismo,
elegendo áreas prioritárias. De certo modo, alimentou-se a dispersão e a pulverização de esforços.
A participação portuguesa em projectos da CEE na área dos materiais tem sido concretizada
nos programas comunitários Euram, Brite e num outro, menos conhecido, sobre Matérias primas,
onde está incluída a cortiça. Desde 1987 que investigadores portugueses, quer das Universidades
quer do LNETI, têm participado nestes projectos. A fusão que se verificou, em 1989, entre os
programas Brite e Euram terá prejudicado a posição portuguesa, já que dessa fusão resultou um
cariz mais tecnológico dos projectos, favorável a países onde haja empresas que pratiquem tecnologias
avançadas. Os investigadores portugueses passarão portanto a trabalhar mais para a Europa e menos
para Portugal, mas isso poderá ser favorável a médio prazo.
Se, até 1980, já havia proliferação das áreas de investigação, tornando impossível
enumerá-las, a situação desde 1980 complicou-se neste aspecto. Por isso referirei apenas
alguns exemplos. Por volta de 1985, iniciou-se investigação no IST e no LNETI na área das
cortiças. No porto surgem, pela mesma altura, grupos de investigação em fundição e também
em biomateriais. Em Coimbra e na UNL põe-se em funcionamento equipamento para medida de tensões
residuais em sólidos. As aplicações dos lasers a tratamentos de superfície de materiais é um
outro sector que arranca com notoriedade, tendo-se instalado o primeiro laser para este fim em
1987. No IST, na Universidade de Aveiro e na UNL despontam grupos de investigação em vidros e
fibras ópticas. Na Universidade de Aveiro, estudam-se cerâmicos avançados à base de carboneto de
silício e nitreto de silício, e cerâmicos eléctricos. Na UNL, o silício amorfo é estudado para
aplicações fotovoltaicas e o know-how adquirido é industrializado pela UNINOVA. As outras áreas
que referi atrás, relativas ao período de 1974-80, mantêm-se todas elas como áreas activas.
O número de investigadores doutorados em Ciência dos Materiais é actualmente próximo de uma
centena. Destes, talvez 10% tenham obtido o seu doutoramento em Portugal. Dos restantes, a maioria
ou é de origem anglo-saxónica (Inglaterra, EUA) ou francesa. Há diferenças no modo de pensar e de
agir entre estes três grupos, que tendem, no entanto, a esbater-se com a mistura provocada pela
«internacionalização» da Europa.
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