- Introdução
- Da Metalurgia à Ciência dos Materiais
- O Ensino da Metalurgia e dos Materiais em Portugal
- A Investigação em Metalurgia e Materiais em Portugal
- A Investigação dos Materiais nas Universidades Portuguesas
- Algumas Características da Investigação dos Materiais em Portugal
- Conclusão
O Ensino da Metalurgia e dos Materiais em Portugal
Em Portugal, como nos outros países, foi a Metalurgia que apareceu primeiro nas Universidades.
Na década de 30 havia disciplinas de Metalurgia I e Metalurgia II, totalmente viradas para a
Metalurgia Extractiva, integradas nas licenciaturas em Engenharia de Minas e Engenharia
Química-Industrial, quer no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, quer na Faculdade de
Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).
No IST, os primeiros professores foram, sucessivamente, Aboim Inglês e António Marques da Paixão.
Este último é substituído em 1948-49 por Agostinho Bargone, um professor italiano da Universidade
de Pádua, que foi convidado para assegurar e melhorar o ensino da Metalurgia.
A reforma curricular de 1955 alargou o ensino da Metalurgia e criou, pela primeira vez, uma
cadeira em que se estudava a estrutura e propriedades dos metais: a Metalurgia Geral e
Metalografia. Além desta foram ainda criadas disciplinas de Siderurgia e de Metais não Ferrosos
(optativa). Enquanto a Metalurgia Geral era leccionada aos alunos de Minas, Química e Mecânica
do IST e FEUP, as duas últimas eram exclusivamente para Minas e Química. Os principais docentes
nesta época foram: em Lisboa, Henrique Estácio Marques e, no Porto, Adriano Rodrigues e
Costa Ferreira.
A disciplina de Metalurgia Geral e Metalografia, pesem embora as deficiências no ensino experimental,
que era inexistente, foi bastante do agrado dos futuros engenheiros químicos, que nas outras
disciplinas do curso só ouviam falar de líquidos e gases. Terá sido Estácio Marques quem falou
pela primeira vez em Portugal de deslocações, a que chamava deslocamentos.
Na década de 60, a situação do ensino não sofreu alterações, a não ser quanto às pessoas que
leccionaram. No Porto, estreia-se Horácio Maia e Costa (1960) e José Antunes Simões Cortez. Em
Lisboa, Estácio Marques convida para assistentes Ricardo Bayão Horta (1960) e António de Pádua
Loureiro (1961), para citar apenas aqueles que continuaram ligados ao ensino dos materiais.
Em meados da década de 60, intensificou-se o ensino da Metalurgia para os futuros engenheiros
químicos do IST, com o aproveitamento da cadeira de «Laboratórios» para aulas práticas de
Metalografia, possíveis graças à aquisição, em 1963, de microscópios metalográficos e de
equipamento para preparação de amostras.
A reforma dos cursos de Engenharia em 1970, no ministério de Veiga Simão, foi decisiva para a
evolução da Metalurgia em Portugal. Foi criada uma licenciatura em Engenharia Metalúrgica
(Decreto-Lei nº 540/70 de 10 Novembro), que começou a funcionar no ano lectivo de 1970-71.
Simultaneamente, as disciplinas de Metalurgia nas outras licenciaturas em Engenharia sofreram
uma redução. Terá sido, segundo consta, a vontade da Engenharia Química de reduzir o tempo dedicado
à Metalurgia que constituiu a gota de água que levou à criação da Engenharia Metalúrgica. Já
havia, de resto, por parte de muita gente ligada ao sector metalúrgico das empresas (a Siderurgia
nacional tinha sido criada em 1956 e entrou em laboração em 1961), alguma pressão no sentido de
se criar a licenciatura. Não consegui apurar quem elaborou o plano de estudos das licenciaturas
criadas em Lisboa e no Porto, que de resto não foram iguais. No Porto, havia um maior número de
disciplinas de Metalurgia extractiva. O currículo escolar da licenciatura no IST foi polarizado
para a Metalurgia Física. O elenco de disciplinas, sobretudo nos primeiros anos, era ainda
«químico», mesmo no IST, e esta característica terá pesado bastante na pequena procura que houve
por parte dos alunos. O número de alunos na 1ª licenciatura foi de 3 no IST e 10 na FEUP. No
IST, fez-se no ano seguinte alguma propaganda da licenciatura, nas aulas dos alunos de Química,
o que teve como resultado o aumento para 12 do número de alunos inscritos no terceiro ano de
funcionamento da Engenharia Metalúrgica. O número médio de Engenheiros Metalúrgicos que se
formaram por ano, entre 1974 e 1984, terá sido de 8 em cada uma das duas Universidades.
Em 1984, a licenciatura em Engenharia Metalúrgica no IST deu lugar à de Engenharia Metalúrgica
e de Materiais, reflectindo a importância crescente dos materiais não metálicos. O Porto permaneceu
fiel aos metais, mas, em sucessivas reformas, tem vindo a diminuir o peso da Metalurgia
Extractiva em favor da Metalurgia Física e Mecânica.
No IST, o ensino dos cerâmicos começou a fazer-se, ainda antes de 1984, em cadeiras cujos nomes
nada tinham a ver com estes materiais. Não obstante a mudança de designação, a licenciatura do
IST manteve ainda um grande peso da metalurgia, havendo uma disciplina semestral para cada uma
das outras grandes classes de materiais (polímeros, cerâmicos e vidros, e compósitos).
Uma evolução semelhante à que acabei de descrever para o ensino da Metalurgia no IST e na FEUP
verificou-se na Universidade de Luanda, mas não na de Lourenço Marques (Maputo). Havia nestas
universidades as mesmas três disciplinas de Metalurgia, na licenciatura em Engenharia Química.
A licenciatura em Engenharia Metalúrgica arrancou em Luanda, tendo-se formado um aluno em 1974.
Um decreto-lei de 1970 criou a mesma licenciatura em Lourenço Marques, onde não chegou a funcionar.
O plano de estudos destas licenciaturas em África era idêntico ao do IST. Os laboratórios de
ensino eram talvez mais bem equipados do que os de Portugal. Em Luanda, por exemplo, havia um
dilatómetro, um bom microscópio metalográfico e mais três microscópios de pequena envergadura,
além de equipamento de peletização e sinterização, incluindo muflas e fornos. Ao ensino em Luanda
estiveram ligados Maia e Costa e Maria Teresa Nogueira, além de outros, num total de sete; e em
Lourenço Marques, A.O. Sampaio, Manuel Amaral Fortes e J.D. Pedroso Botas, num total de três. A
maior parte destas pessoas regressou a Portugal entre 1972 e 1975 e muitos foram para as novas
universidades que haviam sido criadas em 1973.
Na nova Universidade de Aveiro, é criada em 1976 uma licenciatura em Engenharia Cerâmica e do Vidro,
por iniciativa de João Lopes Batista. Esta licenciatura manteve o seu âmbito até hoje e tem sofrido
pequenas alterações curriculares. Já formou 56 engenheiros, especialistas em Cerâmica e Vidro.
Em 1981, iniciou-se na Universidade Nova de Lisboa (UNL) uma licenciatura em Engenharia Física e
de Materiais, com ramos de Engenharia Física e de Engenharia de Materiais. Antes disso, tinham
sido realizados na UNL diversos cursos anuais em vários sectores da Metalurgia e Materiais,
incluindo um curso de Engenharia de Soldadura (1978/79) e quatro cursos de especialização em
Ciência dos Materiais (entre 1977 e 1981). Em 1989, a licenciatura continua a ter a mesma
designação, mas há maior diversificação de cadeiras nos dois ramos referidos. Foi recentemente
decidida a separação das duas licenciaturas.
Na Universidade do Minho, tem funcionado desde 1977 uma licenciatura em Engenharia Têxtil e uma
outra de Transformação de Materiais Plásticos, mas mais viradas para a produção do que para a
Ciência dos Materiais. Esta última deu lugar, em 1989, a uma licenciatura em Engenharia de
Polímeros.
Além das licenciaturas na área específica da Metalurgia e Materiais, há ensino de Ciência dos
Materiais em muitas licenciaturas de Engenharia e de Física.
O grau de mestre foi introduzido nas universidades portuguesas em 1980. Os primeiros cursos
de mestrado na área dos Materiais foram lançados pela Faculdade de Ciências de Lisboa e pela
Faculdade de Ciências do Porto, em 1983/84, por iniciativa dos respectivos Departamentos de
Física. Ambos já funcionaram 3 vezes, tendo cada um formado uma dezena de mestres. São mestrados
mais na área da Física da Matéria Condensada, embora tenham no título a palavra «materiais».
Também no curso de Mestrado em Física das 3 Universidades de Lisboa («Clássica», Técnica e Nova)
há uma especialização em Física do Estado Sólido, que formou 3 mestres desde o seu arranque em
1985/86.
Em 1989, iniciou-se um curso de mestrado em Engenharia de Materiais, com a participação de 5
universidades: a Técnica e a Nova de Lisboa, a FEUP e as de Aveiro e Minho. O primeiro curso
teve 30 alunos, e as aulas são dadas nas diversas cidades onde funcionam as universidades.
A moda dos Materiais originou, na década de 1980, uma profusão de cursos curtos, muitos
deles com inscrições caras, organizados por vários grupos de ensino e de investigação. Os
Engenheiros Mecânicos têm sido particularmente pródigos na organização destes cursos, que,
de uma maneira geral, têm constituído excelente meio de divulgação e fomento de «cultura» no
domínio dos materiais.
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